REPENSE O TEMPO DE AULA: AULA EXPOSITIVA NUNCA MAIS

Jon Bergmann | 8 de Abril de 2021

Tradução: Wilson Azevedo
(segundo de uma série de artigos que, autorizado pelo autor, traduzirei para o Português à medida que forem sendo publicados)

Nos meus primeiros 19 anos como professor fui um ferrenho expositor e muito provavelmente dediquei 60% do meu tempo de aula “ensinando” turmas inteiras. Eu me aperfeiçoei nisso. Tinha minhas piadinhas. Temperava tudo com demonstrações bem legais nas minhas aulas de Química. A maioria dos meus alunos parecia prestar atenção. Eles anotavam, faziam perguntas e pareciam envolvidos. Mas… será que estavam mesmo? Eu realmente estava conseguindo chegar em todos os alunos ensinando dessa maneira? Em retrospectiva, não, eu não estava.

Hoje, não dou mais aula expositiva na sala. Na verdade, eu não dou aula expositiva para toda uma turma desde 2007. Como foi que fiz isso? O que eu faço no lugar disso?

Este artigo faz parte de uma série em que discutiremos como você pode tornar realidade a Aprendizagem para o Domínio. Vou compartilhar como eu e milhares de outros professores transformamos as salas de aula num lugar onde todos os alunos se saem bem. Em meu artigo anterior, aprendemos sobre o que acontece nas salas de aula orientadas para o domínio. Este artigo focalizará a opção “nenhuma aula expositiva para toda uma turma”.

O cerne de uma sala de aula do tipo Flipped Mastery é uma pergunta simples: “Qual é o melhor uso que podemos fazer do tempo em aula presencial?” Eu argumento que seria colocar os alunos trabalhando em coisas complexas (o que quer que seja isto em sua disciplina) diante de seu professor.

E uma maneira com que respondo a pergunta acima é com uma negativa: eu sei que o melhor uso do meu tempo de aula NÃO é transmitir informação. Em vez disso, o tempo da aula precisa ser um tempo em que os alunos se envolvam com a lição. Eles precisam trabalhar juntos. Preciso estar livre para trabalhar com pequenos grupos de alunos. Alguns grupos serão mais de reforço enquanto outros serão desafiadores, ajudando os alunos a fazerem conexões profundas. Parecem experimentos; parecem um pequeno grupo de tutoria. Parecem exploração. Parecem uma construção de relacionamento. E eu jamais voltaria a lecionar como aquele sujeito que se levanta e dá aulas expositivas.

E, numa sala de aula orientada para o domínio, onde em momentos diferentes os alunos estarão em partes ligeiramente diferentes do currículo, é crucial que eu desloque o tempo da exposição de conteúdo. Se eu tivesse que dar aula expositiva para todo o grupo, os alunos que estão mais adiantados ficariam entediados e os que estão mais atrás ficariam perdidos.

Portanto, para que o Aprendizagem para o Domínio funcione, é essencial que qualquer exposição de conteúdo esteja em uma plataforma digital que os alunos possam acessar quando precisarem. Para esse fim, minha exposição de conteúdo assume a forma de uma combinação de vídeo e texto com a qual os alunos interagem quando estão trabalhando de forma independente. Na verdade, dou aos meus alunos a escolha de ou assistir meus vídeos de Ciências ou ler o livro didático. Descobri que a maioria escolhe os vídeos.

Observe também que eu disse “nenhuma aula expositiva para toda uma turma”. Eu não me refiro a isso como nenhuma aula expositiva. Sei que os alunos não sabem o que eles não sabem e eu, como especialista na minha área, conheço o currículo. Portanto, acredito que, embora haja um lugar para a exposição de conteúdo, não é durante o tempo em sala. Em minha experiência de trabalho com milhares de professores em todas as áreas de conteúdo, quase sempre alguma exposição de conteúdo é necessária. Certamente em meus cursos de Ciências vejo essa necessidade. Quando estou resolvendo um problema de Física ou Química, sei que os alunos precisam me ver exemplificando como resolver aquele problema para que possam resolver problemas específicos. Talvez você esteja ensinando alunos da educação infantil a ler. Em algum momento, alguém tem que mostrar a eles como fazer o som A longo ou como fazer a letra T.

Espaço Independente X Espaço em Grupo

Em um curso do tipo Flipped-Mastery, dois termos-chave são usados ​​para ajudar a organizar os cursos: Espaço Independente e Espaço em Grupo. O Espaço Independente é onde os alunos trabalham sozinhos ou de forma autônoma. Isso geralmente acontece fora da sala de aula (dever de casa), mas também pode acontecer na sala de aula. O trabalho no Espaço Independente deve se concentrar nos níveis mais baixos da taxonomia de Bloom, onde os alunos são apresentados ao conteúdo. Pode ter a forma de um pequeno vídeo ou uma curta tarefa de leitura. Às vezes também são chamados de tarefas prévias de aprendizagem.

O Espaço em Grupo é onde os alunos trabalham de forma síncrona conceitos mais difíceis. Eles costumam fazer isso em pequenos grupos e este tempo é caracterizado por metodologias ativas de aprendizagem. Este artigo não se concentrará nesse aspecto — fique atento para um próximo artigo que abordará este tópico.

Opções de Tarefas Prévias de Aprendizagem e Melhores Práticas

Os alunos são apresentados ao conteúdo por meio de um vídeo ou de uma leitura. Se for um vídeo, você pode ou criar seu próprio vídeo ou usar um disponível online. Alternativamente, você pode passar a leitura de um livro ou de alguma outra fonte de leitura. A chave aqui é usar a atividade de aprendizagem prévia de modo a se conectar com a aprendizagem em sala de aula. Certifique-se de que haja uma conexão direta. Se você estiver ensinando dedilhado e acordes em uma aula de violão, peça aos alunos que trabalhem com dedilhado e acordes na aula. Se você estiver ensinando alunos a identificar a aliteração em um poema, peça-lhes que analisem a poesia e procurem a aliteração em sala de aula.

Faça a atividade prévia se tornar social: Outra prática recomendada é tornar social a atividade prévia. Os alunos aprendem melhor quando aprendem socialmente, e agora existem ferramentas nas quais os alunos podem ler socialmente e assistir a vídeos de forma assíncrona. A ferramenta que estou usando atualmente é o Perusall. Quando os alunos lêem nesta plataforma, eles podem destacar o texto e, em seguida, fazer comentários sobre os comentários uns dos outros. A mesma ferramenta faz a mesma coisa com vídeos. A ferramenta é alimentada por inteligência artificial e avalia a qualidade dos comentários dos alunos para produzir um relatório de desencontros e discordâncias. Descobri que essa ferramenta é muito útil para mim, porque me dá uma visão dos equívocos e dificuldades dos alunos antes mesmo de eles entrarem na sala. Um benefício adicional é que os alunos responderão às perguntas uns dos outros diretamente na plataforma.

Quanto mais curto melhor: Da primeira vez que inverti minha sala de aula meus vídeos eram muito longos. Agora, o trabalho prévio é feito em pequenas partes. Um tópico por atividade prévia de aprendizagem. Se eu tiver um tópico mais complexo, irei dividi-lo em várias partes. Para meus alunos do ensino médio meus vídeos têm entre cinco e 12 minutos cada. Quanto mais curto, melhor.

Benefícios do trabalho prévio orientado para o Domínio

Meus vídeos basicamente me multiplicaram. Não fico preso a ensinar todos os alunos no mesmo dia sobre um tópico específico. E essa liberdade me permite fazer o trabalho mais importante como professor. Eu circulo pela sala ajudando os alunos, tendo discussões formativas com eles, conectando-me relacionalmente e juntando-me aos meus alunos na aventura de aprendermos juntos.

Eu sei que você ainda tem dúvidas: especialmente perguntas sobre logística. Como os professores que trabalham Aprendizagem para o Domínio fazem isso com 30 crianças em uma turma e seis turmas por dia? Mantenha-se firme aí. Tem mais por vir.

Recursos adicionais

  • Podcast: Estou iniciando um podcast de vídeo e áudio com foco na Aprendizagem para o Domínio com minhas duas filhas, Kaitie e Emily, que ensinam Inglês e Ciências, respectivamente. O podcast é intitulado Chalkboard Stories. Encontre mais em jonbergmann.com
  • Comunidade: Acabei de lançar uma seção da comunidade do meu site https://jonbergmann.com/Community e você pode criar uma conta e se conectar lá para discutir Aprendizagem para o Domínio.
  • Livro: A segunda metade do meu livro Sala de Aula Invertida: Uma Metodologia Ativa de Aprendizagem focaliza o modelo Flipped-Mastery

Nota: Este artigo foi postado pela primeira vez no Intrepid Ed, onde Jon é colunista.

Trabalho com Educação Online e Inovação Educacional desde meados dos anos 90. Tenho formação em Filosofia, Antropologia e Educação. http://www.aquifolium.com.br