Como a Aprendizagem para o Domínio pode rivalizar com a Tutoria e reduzir lacunas de aprendizagem provocadas pela pandemia

Jon Bergmann | 5 de março de 2021

Tradução: Wilson Azevedo
(primeiro de uma série de artigos que, autorizado pelo autor, traduzirei para o Português à medida que forem sendo publicados)

Escolas fechadas. Ensino remoto. Professores exaustos. A pandemia provocou um grande impacto sobre as escolas de todo o mundo. Talvez o maior problema que enfrentamos agora e enfrentaremos mais à frente seja o impacto das perdas e lacunas de aprendizagem causadas pela pandemia. Num artigo de Libby Pier e outros, os autores chegaram a duas conclusões importantes sobre os resultados da pandemia na Educação:

  1. Tem havido perda significativa de aprendizagem em Língua Inglesa e Artes (ELA) e em Matemática, com os alunos das séries iniciais sendo os mais afetados.
  2. O impacto em equidade é forte: certos grupos de alunos, especialmente alunos de baixa renda e alunos que têm o inglês como segundo idioma (ELLs), estão ficando mais para trás em comparação a outros.

Os autores resumiram isso no gráfico abaixo:

COVID-19 e a crise na equidade educacional | PACE

A grande questão é como ensinar à luz das crescentes perdas em aprendizagem, especialmente com alguns de nossos alunos mais vulneráveis. Há alguma maneira de alcançarmos alunos que se encontram distribuídos numa ampla variedade de níveis de habilidade na mesma sala de aula? Como alcançar os alunos? Como trabalhar com uma gama tão ampla de compreensão e domínio?

Aprendizagem para o Domínio semi-assíncrona

Em 2012, escrevi o livro Flip Your Classroom junto com Aaron Sams. Na segunda metade do livro, falamos sobre como fundimos a Aprendizagem Invertida com a Aprendizagem para o Domínio e a apelidamos de “Aprendizagem Invertida para o Domínio” (Flipped-Mastery Learning). Desde aquela época, milhares de professores em todo o mundo implementaram o modelo Flipped-Mastery com grande sucesso. Embora tenha muitas iterações, o básico permanece o mesmo.

  • Os alunos avançam pelo currículo num ritmo flexível e, ao final de cada unidade de estudo, são avaliados.
  • Se eles dominam um ponto do currículo, podem passar para o próximo tópico.
  • Se não, eles não seguem em frente. Os alunos que não demonstrarem domínio obtêm reforço e, em seguida, refazem a avaliação somativa. E vão fazendo isso até demonstrar domínio.

Aprendizagem para o Domínio não é um conceito novo. Nos EUA os médicos têm que passar no Exame do Conselho de Medicina. Os advogados, no Exame da Ordem e a maioria de nós deve ter feito um teste de habilitação para motoristas. Todos esses são exemplos de aprendizagem para o domínio. Mas como o professor médio pode implementar isso quando trabalha com 30 alunos por turma e seis turmas por dia? O que mais sobrecarrega não é o conceito de domínio: é sua logística diária de implementação.

Gerenciar 30 alunos, distribuídos em lugares ligeiramente diferentes no currículo, parece impossível. Você pode perguntar:

  • Se houver necessidade de alguma exposição direta de conteúdo em sua turma, como você conseguiria fazer isso para alunos que estão em diferentes pontos da sala de aula?
  • Como você faz para ter diferentes avaliações para os alunos fazerem de modo que as perguntas variem toda vez que eles forem avaliados nos principais objetivos?
  • Como faço para conseguir controlar tudo?

Um pouco de história sobre a Aprendizagem para o Domínio — O problema dos 2-Sigma

Você sabia que Benjamin Bloom, da famosa “Taxonomia de Bloom”, passou grande parte de sua carreira mostrando que a Aprendizagem para o Domínio funcionava e defendia sua adoção? Em 1984, ele escreveu um artigo na revista Educational Researcher intitulado “O Problema dos 2-Sigma: a busca por métodos de ensino em grupo tão eficazes quanto a tutoria individual”. Ele citou estudos que comparavam o desempenho dos alunos em “ensino convencional”, em Aprendizagem para o Domínio, e em tutoria individual. A pesquisa indica que a tutoria individual resulta numa melhoria de dois desvios-padrão no desempenho do aluno (veja o gráfico abaixo):

O artigo é essencialmente um desafio para o mundo educacional encontrar um método de ensino que seja tão eficaz quanto a tutoria individual. Ele ainda afirma:

Se a pesquisa sobre o problema dos 2-Sigma produzir métodos práticos (métodos que o professor médio ou o corpo docente da escola possam aprender num breve período de tempo e usar com pouco mais custo ou tempo do que o ensino convencional), seria uma contribuição educacional da maior magnitude. Isso mudaria as noções populares sobre o potencial humano e teria efeitos significativos sobre o que as escolas podem e devem fazer com os anos educacionais que cada sociedade exige de seus jovens.

É como se ele nos desafiasse a encontrar o “Santo Graal” educacional. Nos mais de 30 anos passados desde então ninguém encontrou o Graal… ou será que encontramos?

Se me permite ser tão ousado, o método que Bloom estava procurando é o Flipped Mastery. Ele combina Aprendizagem para o Domínio com o ensino individual. Ele permite que os professores tenham um tempo qualitativo individual ou em grupos pequenos que realmente funciona.

Com o que o Flipped Mastery se parece?

Por agora, espero que você esteja pelo menos incomodado. Com o que se parece uma sala do tipo “2-Sigma”? Quais são seus elementos essenciais? A melhor maneira de entender esse modelo seria visitar uma sala de aula invertida para o domínio. Em vez disso, deixe-me tentar descrever o que você veria.

  • Nenhuma aula expositiva para toda a turma: exposição de conteúdo ainda ocorre — de maneira invertida — com os alunos assistindo vídeos ou lendo material como pré-trabalho.
  • Ritmo flexível: os alunos trabalham o conteúdo em ritmo flexível. Nem todos os alunos estão na mesma “página” do currículo, mas eles avançam dentro do nível apropriado a cada um eles.
  • Diferenciação extrema: literalmente converso com cada aluno em todas as aulas todos os dias e, ao fazer isso, posso personalizar o percurso de aprendizagem dos alunos.
  • Interação professor-aluno: aplico meu tempo de aula andando pela sala e interagindo com os alunos — sempre em modo de avaliação formativa — verificando se estão entendendo, fazendo perguntas aos alunos, fazendo com que os alunos façam perguntas a mim.
  • Alunos trabalhando colaborativamente: embora cada aluno esteja em seu próprio percurso de aprendizagem individual, eles se agrupam e trabalham colaborativamente para aprender o currículo. Isso traz uma infinidade de benefícios, incluindo um melhor funcionamento da logística, mas também agregando valor com um grupo de alunos aprendendo uns com os outros e comigo.
  • Avaliação somativa: Em minha sala espero que os alunos obtenham uma pontuação de pelo menos 80% em todas as avaliações somativas. Muitos repetem uma avaliação várias vezes até atingirem o domínio.
  • Milhares de versões: Cada vez que os alunos fazem uma avaliação somativa eles fazem um teste diferente. Estou usando o recurso de teste do Brightspace da D2L, que me permite ter literalmente milhares de versões do mesmo teste nas quais os alunos recebem perguntas diferentes a cada vez que avaliam os mesmos objetivos.
  • Feedback imediato: Muitos estudos mostram que o feedback imediato leva a uma melhora significativamente maior na compreensão. Quando os alunos concluem uma avaliação somativa, eles vêm até mim e nós analisamos juntos. Durante essas conversas, várias coisas acontecem. Se eles se saem bem, toco um gongo e comemoramos. Se não, eu uso a sessão como um momento corretivo para ajudá-los a se prepararem para fazer outra avaliação mais tarde.
  • Relacionamento: Com o tempo extra para interagir, os professores em Flipped Mastery têm mais tempo para desenvolver relacionamentos positivos com seus alunos. Todos sabemos que os alunos aprendem melhor quando estão com um professor que não está apenas interessado em seu desempenho acadêmico, mas também acredita neles.

Esta breve introdução ao modelo Flipped Mastery pode fazê-lo parecer pesado. Para mim é fácil dizer que todas as coisas acima acontecem. Mas imagino que você esteja se perguntando sobre COMO fazer cada uma dessas coisas… não se preocupe. Este é o primeiro de uma série de artigos em que vou detalhar os tópicos acima. Também compartilharei como isso funciona em uma ampla variedade de configurações de sala de aula. Do ensino fundamental ao ensino médio. De aulas de Ciências como a minha a aulas de História ou Línguas. Também abordaremos com o que isso se parece no ensino remoto ou híbrido.

Recursos adicionais

  • Podcast: Estou iniciando um podcast de vídeo e áudio com foco na Aprendizagem para o Domínio com minhas duas filhas, Kaitie e Emily, que ensinam Inglês e Ciências, respectivamente. O podcast tem o título de Chalkboard Stories. Saiba mais em jonbergmann.com
  • Comunidade: Acabei de lançar uma seção de comunidade em meu site e você pode criar uma conta e conectar-se a ela para conversar sobre a Aprendizagem para o Domínio.

Nota: Eu escrevi este artigo para IntrepidNews.com e você pode encontrar o original aqui

Trabalho com Educação Online e Inovação Educacional desde meados dos anos 90. Tenho formação em Filosofia, Antropologia e Educação. http://www.aquifolium.com.br

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