AULA PELO ZOOM/MEET? Por favor, NÃO faça isso!

Wilson Azevedo
4 min readNov 26, 2020

Se você é professor de qualquer nível de ensino, em meio à pandemia você provavelmente tem passado boa parte dos seus dias dando aulas online por videoconferência multiponto através do Zoom, Meet ou similares.

Solicito sua atenção e paciência para as 3 ponderações que faço a seguir, fornecendo informações e expondo motivos para não concentrar carga horária em atividades síncronas deste tipo com seus alunos.

  1. Zoom Fatigue

Este é o nome que está sendo dado neste momento a uma patologia já identificada e que de poucos meses para cá começou a ser objeto de investigação científica e reflexão: a exaustão provocada em trabalhadores, professores, alunos e seus familiares como resultado da exposição a horas e horas diárias de videoconferência multiponto.

A escolha por um modelo de ensino remoto fortemente calçado em videoconferência multiponto tem esta inevitável consequência: o adoecimento gradual de professores e alunos.

É a experiência que centenas de milhares de professores e estudantes estão tendo neste momento no mundo todo, inclusive no Brasil, especialmente nas redes privadas, as primeiras a seguirem esta equivocada trilha.

Em poucas semanas após o início do ensino remoto nessas redes, professores já estavam se sentindo sobrecarregados, esgotados, a caminho de uma estafa. Igualmente seus alunos e, em muitos casos, suas famílias.

As razões de natureza científica para isto, sobretudo a partir da perspectiva da Neurociência, podem ser encontradas nestas matérias e artigos:

Why Does Zoom Exhaust You? Science Has an Answer
What’s behind ‘Zoom fatigue’? The answer lies in the interplay of technology, social science and biology.

The reason Zoom calls drain your energy
Since the Covid-19 pandemic hit, we’re on video calls more than ever before — and many are finding it exhausting.

Zoom fatigue: o esgotamento provocado pelo excesso de videoconferências
Sobretudo como ferramenta de trabalho, os encontros on-line andam causando cansaço mental que já tem nome

Sobrecarregados pelo ensino remoto, professores podem adoecer em massa, alerta psicóloga
Pandemia impõe longas jornadas, desafios técnicos e alto nível de cobrança a educadores, o que pode levar ao esgotamento profissional

“Estamos exaustos”, relatam estudantes da Zona Leste de SP sobre o EaD
Manifesto redigido pelos estudantes denuncia a precariedade do ensino remoto.

Professores e estudantes da sua instituição de ensino não precisam passar por isto. Estafa, exaustão, sobrecarga, fadiga, estresse e burnout podem ser evitados. Mas, para isso, é preciso reavaliar a decisão tomada e reduzir ao mínimo a carga horária síncrona.

2. As maiores iniciativas de Educação Online não fazem isto

Desde algumas décadas para cá temos universidades exclusivamente a distância que, especialmente nos últimos 30 anos, foram se tornando universidades online. A Open University do Reino Unido é uma das maiores e talvez a mais influente e conhecida dessas universidades.

Uma busca nas dezenas de cursos por ela oferecidos confirmará: não há nela um único curso em que metade da carga horária seja síncrona. Na verdade, é raríssimo encontrar um curso da Open University que exija que seus alunos participem de atividades síncronas.

O mesmo pode ser constatado nas iniciativas de Educação Online das mais bem reputadas universidades do mundo. Uma delas, a EdX, é mantida por 3 das melhores universidades norte-americanas, habitualmente presentes nos rankings das 10 melhores universidades do planeta: Harvard, MIT e UCBerkeley.

Igualmente não há ali um único curso que concentre carga horária em atividades síncronas. A esmagadora maioria não exige um segundo sequer de atividades síncronas.

Isto tem motivo.

Quando instituições que possuem uma reputação mundial a zelar colocam seus melhores cérebros para pensarem sobre como oferecer ensino remoto, elas simplesmente ou abandonam ou relegam a segundo, terceiro ou milésimo plano as atividades síncronas. Seus melhores cérebros descobrem o que a comunidade de praticantes e profissionais de Educação Online foi aprendendo ao longo de 40 anos de história desde quando o primeiro curso online foi oferecido em 1981.

3. 40 anos de história não recomendam isto

Muito naturalmente, as primeiras tentativas de fazer ensino e aprendizagem acontecer a distância online começaram buscando mimetizar em ambiente virtual o que se fazia em ambientes presenciais.

Mas logo no início desta história esta linha foi abandonada.

À medida que se compreendia melhor a natureza da interação online e as dinâmicas que ambientes virtuais tornavam possíveis, um conjunto de práticas, estratégias, técnicas e métodos especificamente desenvolvidos para ambientes virtuais de aprendizagem foram surgindo e passaram a ser continuamente aperfeiçoados ao longo dos anos.

Toda uma comunidade de prática e pesquisa se formou em torno da aprendizagem online. E esta comunidade aprendeu que não é produtivo concentrar carga horária em atividades síncronas, que a assincronia oferece melhores resultados.

É por isto que praticamente não se encontra, na gigantesca oferta mundial de cursos online das mais diversas especialidades e dos mais diversos níveis de ensino, cursos baseados em atividades síncronas. Eles são raríssimos.

Por favor, não deixe de refletir sobre as informações que compartilhei acima. Como educador que já acumula 25 anos de experiência nesta área, olho para a escolha feita por muitos e vejo uma situação bem próxima da que a imagem que encabeça este texto ilustra:

Isso não vai dar certo…

http://eoler.aquifolium.com

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Wilson Azevedo

Trabalho com Educação Online e Inovação Educacional desde 1994. Tenho formação em Filosofia, Antropologia e Educação. http://linktr.ee/wilsonazevedo